Quem não teve história com o VW Fusca e com a Estrada Velha de Santos deixou de viver emoções únicas. O Volksporsche, agremiação associativa automotiva que tem seu maior núcleo no Grande ABC paulista, está promovendo um passeio no dia 22 de março, quando até 100 veículos vão poder se juntar a uma caravana para ter o privilégio de descer a antiga Estrada Velha. Para os reclamões de plantão que ainda acreditam que existe almoço de graça, o passeio vai custar R$ 120,00 por carro, que por sua vez poderá levar até quatro pessoas. Isso porque a empresa que administra e cuida da manutenção da estrada cobra ingresso para se fazer o roteiro turístico a pé. Por isso descer de carro é um privilégio.
Na década de 70 descer e subir pela Estrada Velha era rotina. Indo ou voltando das viagens ao litoral norte de Santos para os acampamentos selvagens que a família organizava, fazer paradas para admirar a baixada Santista era parte do programa. Outra parada quase obrigatória era pára colocar uma pedrinha de gelo (devidamente guardada para essas ocasiões) na bomba e combustível do Corcel 72, quatro portas, cor laranja “mais que chequei”, do meu cunhado.
Anos depois (1986), já jornalista, eu e fotógrafo Alberto Murayma fizemos imagens da Honda 750 Four, um grande lançamento da Honda na época, para o suplemento de automóveis do Diário do Grande ABC. Na época conhecemos uma galera de malucos que desciam a estrada, no maior pau, com carinhos de rolimã. Eles faziam as curvas de lado, derrapando. Era o maior perigo, mas felizmente usavam capacetes, luvas e roupas grossas para as eventuais raladas.
Foi fazendo trilha de motocicleta pela região da Serra em 1988 que eu e minha DT preta, ano 1972 mas com toda a mecânica nova, descobrimos um trecho do Calçadão de Lorena. Era um caminho estreito todo calçado com pedras lascadas. Não demorou muito para a descoberta virar pautas em jornais depois de publicada uma matéria no meu “patrão da época, o Diário do Grande ABC.
A estrada virou meu cenário fotográfico favorito anos depois (a partir de 1992), quando já estava trabalhando no Jornal do Carro, do Jornal da Tarde. Ali eu e meu parceiro, Oswaldo Palermo, perseguimos muitos segredos de fábrica, seja durante o dia, seja a noite. Ali era, ou ainda é, usado pela Ford e Volkswagen para alguns testes específicos de novos lançamentos. Foram vários segredos revelados, como o VW Logus (fotografado a noite) e caminhões novos da Mercedes.
Mas o segredo mais importante, esse fotografo por mim de dentro da cabine de um caminhão Scania, foi em 1987. Na época, Volkswagen e Ford haviam se fundido na Autolatina e o primeiro resultado prático da união seria a colocação do motor VW AP no Ford Escort. Numa bela tarde (16h00), estava lá fazendo uma matéria quando vi aparecer no retrovisor do caminhão três Escort, um deles, o do meio, sem o capô do motor. Na hora soube que eram de fábrica, pois estavam com placa azul.
A engenharia da Ford (não época as engenharias ainda eram separadas), estava com dificuldade para encontrar o ponto de apoio do motor e saíram para fazer uma verificação rápida. Como já era tarde acreditaram que não haveria nenhum problema ou surpresa. Azar deles, sorte minha. Eu acabara de comprar uma Yashica FX1 para aprender a fotografar e estava no alto da cabine de um caminhão. Eles passaram e eu disparei o motordrive. O resultado foi parar na capa da revista 4Rodas e me rendeu dinheiro para pagar a máquina.
Por essas e tantas outras, se há um lugar onde tenho boas lembranças, esse é a Estrada Velha de Santos. Só nunca fui lá para pescar. E, claro, vou participar desse passeio organizado pelo Luciano.
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